Relato de caso: Carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma em tumor misto em um cão
O estudo de casos de neoplasias hepáticas em cães colabora para compreender a complexidade dos tumores que afetam o fígado, tanto em animais quanto em humanos. O carcinoma hepatocelular e colangiocelular misto (cHCC-CCA) é um exemplo raro dessa condição e foi recentemente identificado em um cão atendido pelo Laboratório de Patologia Veterinária da UFSC, Campus Curitibanos.
- Caso Clínico
Segundo o clínico, um cão macho, sem raça definida, de 12 anos, foi encaminhado ao LABOPAVE com histórico de anorexia, fraqueza progressiva e paralisia.
Os exames laboratoriais indicaram alterações hepáticas (FA 639 UI/L, albumina 1,8 g/dL). Diante do agravamento do quadro clínico, o animal foi submetido à eutanásia e encaminhado para necropsia.
- Achados Macroscópicos e Microscópicos
Fígado: bordos arredondados, aumento difuso e superfície irregular. Múltiplas áreas brancacentas de 0,2 até 1,5 cm, com consistência macia a firme e presença de áreas císticas.
Pâncreas: nodulações multifocais firmes, semelhantes às observadas no fígado.
Pulmões: múltiplos focos de pequenas nodulações brancacentas de 0,5cm.
Histologia: o parênquima hepático apresentava áreas neoplásicas formadas por cordões e túbulos de células pleomórficas, separadas por estroma fibrovascular delicado. As células variavam de redondas a poliédricas, com núcleos basofílicos e citoplasma amplo e eosinofílico, frequentemente vacuolizado. Foram observadas 18 mitoses em 2,37 mm².
Lesões semelhantes foram observadas no pâncreas e pulmões, compatíveis com metástases.
Figura 1. Fígado de um canino. À esquerda, macroscopia evidenciando bordos arredondados, aumento difuso e superfície irregular. À direita, observam-se múltiplas áreas brancacentas variando de 0,2 a 1,5 cm de diâmetro, além de regiões com evidência do padrão lobular.
Figura 2. Fígado de um canino. Microscopia mostrando, no canto superior esquerdo, células neoplásicas dispostas em padrão cordonal, enquanto no lado direito observam-se arranjos tubulares. Notam-se células em mitose e infiltrado linfoplasmocítico no interstício. Coloração de Hematoxilina e Eosina (H&E), aumento total de 400×.
Figura 3. Pulmão de um canino. Microscopia evidenciando, no canto superior direito, células neoplásicas dispostas em arranjo tubular. Coloração de Hematoxilina e Eosina (H&E), aumento total de 100×.
- Diagnóstico
Carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma em tumor misto (cHCC-CCA).
- Discussões e Implicações
A ocorrência de tumores hepáticos mistos, embora rara, evidencia a complexidade da oncologia veterinária e os desafios que ainda persistem no diagnóstico e tratamento dessas neoplasias. Casos como este, envolvendo animais idosos e o comprometimento de múltiplos órgãos, reforçam a necessidade de uma abordagem diagnóstica cuidadosa e abrangente.
As neoplasias hepáticas primárias em cães são incomuns, correspondendo a apenas 0,6% a 2,6% dos tumores nesta espécie. Dentro desse grupo, o carcinoma hepatocelular (HCC) é o mais frequente, enquanto o colangiocarcinoma (CCA) e as formas combinadas (cHCC-CCA) representam apenas 1,8% a 2,0% dos casos descritos.
Devido às semelhanças morfológicas entre os diferentes tipos de carcinoma, erros diagnósticos podem ocorrer quando se baseiam apenas em achados clínicos ou de imagem. Assim, a avaliação histopatológica detalhada é essencial para a correta diferenciação das neoplasias hepáticas, sendo o único método capaz de confirmar com precisão o diagnóstico de carcinoma hepatocelular e colangiocarcinoma em tumor misto (cHCC-CCA).
Além de sua relevância clínica, a documentação e análise de casos como este fortalecem o campo da oncologia comparada, permitindo a correlação entre achados patológicos em animais e humanos. Esse intercâmbio de conhecimento contribui para o entendimento do comportamento biológico dos tumores hepáticos e para o desenvolvimento de melhores estratégias diagnósticas e prognósticas em ambas as espécies.
Referências:
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